Anos atrás conversei com um amigo que a vida me deu. Ele me falou coisas interessantes de uma união que talvez ele nunca tivesse parado para pensar. Morar junto, viver com alguém, não é fácil (não estou falando de namoro). Os dois precisam querer e se esforçar pela relação. É preciso ter independência, ter individualidade, sim. Não se pode anular demais a si, sob pena de se perder o “eu” e viver somente a vida do outro, mas é preciso ter o que ele chamou de “zelo“, não no sentido de proibição, de controle ou de “melação”.
Disse-me que ele e sua companheira não se importavam aonde o outro ia, o porquê demorou, com quem se encontraram, o que o outro fez durante o dia. Ao se chegar nesse ponto, sabemos que o negócio está desandando. Cada um cuidava muito bem de si, os dois tinham os seus próprios afazeres e trabalhos e os faziam com maestria, ninguém se interessava pelo que o outro fazia e se encontravam por morarem na mesma casa. Um não precisava do outro. Sentavam-se para comer juntos porque os dois tinham fome e a comida estava pronta, talvez nem tanto pela companhia. Quem sabe a fome fosse uma das poucas coisas que ambos tinham em comum.

Não estou falando de falta de confiança, insegurança, ciúme ou controle, não! Tudo isso, se existir, é eliminado com o tempo e com a conduta do companheiro. Estou falando de falta de interesse um pelo outro, comodismo, falta de carinho, querer fazer parte, opinar (não ingerência arbitrária).
Contou-me uma vez que estava para fechar uma parceria de trabalho e pergunta à sua “companheira” o que ela achava, ao que ela responde: “Você sempre cuidou tão bem das suas coisas até aqui, sempre deu tudo certo, você sabe o que fazer.” Não era bem o que ele gostaria de ter ouvido, ele queria uma opinião. E convenhamos, não é só isso, é participar das decisões, da vida do outro. No entanto, era mais um indício de que os dois eram alheios da vida um do outro, embora morassem na mesma casa, dormissem na mesma cama e compartilhassem refeições.
Existiam palavras e declarações bonitas: “Eu te amo”, “amor” etc. Porém, palavras como estas desacompanhadas de ações servem apenas para dar uma sobrevida e esperança ao relacionamento que já está na UTI e com prazo de expiração. É preciso mais do que palavras, é preciso de gestos concretos, ações, querer fazer parte. É o tema da música “More Than Words” da banda Extreme. Ele me disse que se sentia sozinho, descuidado, o que ela também sentia.
A relação de ambos durou 2 anos, não estão mais juntos. Ele ao falar dela me deu a impressão de que ainda gosta. Eles conversam eventualmente até hoje. Pergunto se ele se arrepende por ter deixado isso acontecer, não deu o braço a torcer (acho), mas a elogia muito. Achará outra mulher igual?! São cuidados que uma comunhão plena de vidas ou até um namoro requerem. Quanto tempo investido!