Veneração às Santas Relíquias. Entenda!

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Recentemente (em 17/08/2026), na Itália, uma procissão católica em homenagem à Santa Águeda causou controvérsia na internet. Alguns perplexos, outros assustados, pelo fato de verem o arcebispo de Catânia, Dom Luigi Renna, segurar e beijar o crânio da santa, isto é, um “resto mortal”, que, para nós católicos, chamamos de “relíquia”. Alguns críticos no Instagram chamaram isso de “ritual macabro”, de “necromancia”, de “culto diabólico”. Outros, nos comentários da postagem, agradecendo por terem saído da Igreja Católica.

Bispo Dom Luigi Renna beijando crânio da Santa Águeda, em 17 de agosto de 2026 — Foto: Arquidiocese de Catânia/Reprodução. Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/20/video-bispo-beija-cranio-de-santa-de-quase-2-mil-anos-durante-celebracao-na-italia.ghtml

Afinal, de onde vem isso? Qual a razão para tanto apreço às relíquias dos santos? Isso vem da boa, antiga e segura Tradição Católica, da qual, inclusive, as Sagradas Escrituras fazem parte. Vamos fazer um apanhado cronológico-bíblico breve e depois apresentar as razões.


Ossos do profeta Eliseu

A Bíblia registra um homem que ressuscitou ao colocarem seu cadáver em contato com os ossos do profeta Eliseu em seu túmulo, o que demonstra que os restos mortais de um santo de Deus não são qualquer coisa.

[…] jogou o cadáver no túmulo de Eliseu. O morto, ao tocar os ossos de Eliseu, voltou à vida e pôs-se de pé. — 2Reis 13,21.1

Pintura: O Homem Morto Restaurado à Vida ao Tocar os Ossos do Profeta Eliseu – Washington Allston. Fonte: https://www.pafa.org/museum/collection/item/dead-man-restored-life-touching-bones-prophet-elisha


Ossos de José do Egito

Esse respeito pelos corpos dos mortos é demonstrado também no livro de Gênesis, quando José pede, sob juramento, aos israelitas que levassem os seus ossos do Egito quando lá ele morresse.

E José fez que os filhos de Israel jurassem: ‘Quando Deus vos visitar’, disse ele, ‘levareis daqui os meus ossos’. — Gn 50,25.2

Na continuação disso, os mesmos ossos de José foram preservados por Moisés. Ele, que nasceu décadas depois de José do Egito, fez questão de levar consigo os ossos do patriarca, conforme se lê no livro de Êxodo:

Moisés levou consigo os ossos de José, porque este fizera os filhos de Israel jurarem: ‘Quando Deus vos visitar, levareis daqui os meus ossos convosco’. — Ex 13,19.3

Moisés levando consigo os ossos do Patriarca José – Fonte: arquivo pessoal.

Somente com Josué, num intervalo de muitas gerações, os ossos de José são finalmente enterrados em Siquém:

Sepultaram também em Siquém os ossos de José que os israelitas tinham trazido do Egito; depuseram-nos na porção da terra que Jacó havia comprado aos filhos de Hemor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que se tornou propriedade dos filhos de José. — Js 24,32.4

Por fim, dada tamanha importância a isso, a Carta aos Hebreus, no Novo Testamento, retoma essa realidade:

Foi pela fé que José, aproximando-se do fim, evocouo êxodo dos filhos de Israel e deu ordens a respeito dos seus restos mortais. — Hb 11,22.5

Os israelitas, Moisés, Josué e até o autor da Epístola aos Hebreus (ao registrar o fato) poderiam simplesmente ter feito pouco caso dos restos mortais de José: para que guardar uma ossada? Qual o sentido de preservar um esqueleto? Mas não. Os ossos foram cuidadosamente conservados por gerações, transportados durante o Êxodo e finalmente sepultados na Terra Prometida.

Continue lendo, no final farei uma conclusão a respeito de todo esse apanhado.


Lenços do Apóstolo Paulo

Partindo para o Novo Testamento, encontramos, no Livro dos Atos dos Apóstolos, pessoas sendo curadas porque sobre elas eram colocados lenços que tocaram no Apóstolo Paulo (At 19,11s), demonstrando que Deus realiza milagres por meio desses objetos.

“Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado o seu corpo eram levados aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos.” – At 19,11s.6


Ossos de São Policarpo de Esmirna

Indo um pouco adiante, além do respeito pelos corpos dos santos e já entrando na veneração, temos documentos extrabíblicos, como o “Martírio de Policarpo” (✝ 155 d.C.), o qual teria sido escrito por volta do ano 156 d.C. Trata-se de uma carta da Igreja em Esmirna enviada à Igreja em Filomélio (Ásia). Nela, encontramos um trecho em que o redator registra a atitude dos irmãos de Esmirna diante do corpo carbonizado do mártir Policarpo:

Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro. – Martírio de São Policarpo, bispo de Esmirna.7





Ossos de São Protásio e São Gervásio

Santo Agostinho (354–430 d.C.), no século IV, aponta para a mesma conduta de veneração às santas relíquias no seu mais célebre escrito, “Confissões”, quando ele retrata sobre os corpos dos mártires São Protásio e São Gervásio (Livro IX, capítulo VII):

Nessa ocasião, revelaste em visão ao teu bispo Ambrósio o lugar onde se encontravam os corpos dos mártires Protásio e Gervásio. […] Descobertos e desenterrados, foram os corpos transportados com todas as honras para a basílica ambrosiana. Verificou-se, durante o trajeto, não só que possessos se livravam dos demônios, o que foi atestado pelos próprios demônios, como também um cego de muitos anos, cidadão bem conhecido na cidade, tendo ouvido o ruído da multidão em festa e havendo indagado e sendo informado sobre a causa da turbulenta alegria do povo, levantou-se e pediu ao guia que o levasse até lá. Ao chegar, obteve permissão para tocar com o lenço o ataúde dos teus santos, cuja morte é tão preciosa a teus olhos. Logo que tocou o caixão e encostou o lenço nos olhos, estes imediatamente se abriram. A notícia logo se divulgou, elevando-se a ti fervorosos e solenes louvores. O coração de tua inimiga, se não chegou a empenhar-se no ato de fé que a teria salvo, pelo menos moderou o furor da perseguição. Graças a ti, meu Deus!8

Nesse relato agostiniano, vemos mais do que veneração (profundo respeito/reverência) às santas relíquias, mas também o que Deus fez por meio delas, o que foi causa, inclusive, de louvores a Deus pelo povo e de ação de graças do próprio Santo Agostinho.

Para não me delongar demais, nem entrarei no fato de que os cristãos primitivos se reuniam nas Catacumbas, na companhia dos restos mortais dos santos mártires, a fim de celebrarem a Eucaristia.


Voltando à procissão em Catânia

O que a Igreja fez em Catânia, Itália, naquela procissão do dia 17/08/2026 com as relíquias de Santa Águeda (235–251 d.C.) e que gerou celeuma não é nada além do que a Igreja sempre fez desde o início do cristianismo.

Quem foi Santa Águeda (ou Ágata)? Resumidamente: foi uma mártir cristã do século III que viveu na região da Sicília (Itália). Teve seus seios mutilados e posteriormente foi queimada por recusar-se a abandonar a fé em Cristo e não se entregar ao cônsul Quinciano.

Algumas perguntas fazemos diante disso: esse exemplo de coragem e de fé, de alguém que preferiu manter a união com Cristo, mesmo que isso custasse a própria vida, nos aproxima ou nos afasta de Deus? É esse encorajamento de aproximar-se de Deus que brota nos corações ao honrar o corpo dos Santos Mártires. E mais, demonstra quão grande fé Deus inspirou naquele santo que tanto O amou até as últimas consequências.

O que o Catecismo da Igreja Católica fala sobre isso? As práticas de piedade popular, como o Rosário, as peregrinações, as procissões e a veneração das relíquias, são importantes expressões da fé cristã e prolongam a vida litúrgica da Igreja. Contudo, não a substituem, especialmente os sacramentos, devendo estar em harmonia com ela e conduzir os fiéis para ela, pois a liturgia ocupa um lugar superior na vida da Igreja (CIC 1674 e 1675)9.


Considerações finais

A mediação material não é estranha à fé bíblica e apostólica (Tradição). A Igreja sempre acreditou que o corpo humano é a casa em que habita o Espírito Santo e será ressuscitado. Vejam as matérias dos Sacramentos: água do Batismo, pão da Eucaristia etc. Assim como as relíquias que também são materiais, elas, por si só, não possuem poder em si mesmas. Deus é quem age por meio da realidade material dos Sacramentos e das relíquias (sacramentais).

Portanto, a veneração das relíquias não nasce de superstição, necromancia (isso é outra coisa) ou culto aos mortos, mas da fé da Igreja na vitória de Cristo sobre a morte e na comunhão dos santos, bem como na mediação material de seus corpos. A Igreja Católica não adora ossos, objetos ou restos mortais; ela adora somente a Deus. Porém, honra aqueles que pertenceram a Cristo de modo exemplar, porque neles a graça divina produziu frutos de santidade, coragem e fidelidade. Se Deus quis agir, nas Escrituras e na história da Igreja, servindo-se de corpos, panos, túmulos e objetos ligados aos seus servos, então não há contradição ou incorreção alguma em tratá-los com respeito, reverência e gratidão.

Assim, diante das relíquias de Santa Águeda, de São Policarpo, dos mártires antigos ou de qualquer santo reconhecido pela Igreja, o olhar católico não se detém na matéria como se ela tivesse poder próprio. Pelo contrário: a relíquia aponta para Cristo, Senhor dos vivos e dos mortos, que santifica o corpo humano e promete a ressurreição final. Venerar as relíquias é recordar que a santidade é concreta, que a fé se encarna na vida real e que até o corpo daquele que amou a Deus permanece sinal da obra divina.

Por isso, longe de ser algo macabro, a veneração das relíquias é uma profissão silenciosa de fé: cremos que Deus é o Deus da vida, que os santos vivem em Cristo e que seus exemplos continuam a fortalecer a Igreja peregrina. Ao beijar, incensar ou conduzir uma relíquia em procissão, a Igreja não presta culto de adoração à criatura, mas louva a Deus pelas maravilhas que realizou nela. E, ao contemplar a fidelidade dos santos, também nós somos chamados a perseverar na fé, a amar mais profundamente a Cristo e a seguir o mesmo caminho de santidade que eles trilharam.

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  1. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Ave Maria. 111. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2025. ↩︎
  2. Ibidem. ↩︎
  3. Ibid. ↩︎
  4. Ibid. ↩︎
  5. BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. São Paulo: Paulus, 2002. ↩︎
  6. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada Ave Maria. op. cit. ↩︎
  7. SANTOS, Claudiano Avelino dos (ed.). Padres apostólicos. Tradução de Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulus, 1995. ↩︎
  8. AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 1984. ↩︎
  9. IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1999. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p2s2cap4_1667-1690_po.html. Acesso em: 30 ago. 2026.
    ↩︎

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