Quando se fala sobre “vida interior” alguns pensam tratar-se de um modo de vida introspectivo ou de alguém que vive pensando em si mesmo, preso nos próprios pensamentos.
Na verdade, vida interior é o que acontece, como o próprio nome diz, no interior da pessoa: seus pensamentos, afetos, desejos, decisões, e sobretudo, sua amizade com Deus.
Indo um pouco além, podemos dizer que vida interior é viver voltado para Deus: procurar conhecê-Lo, amá-Lo e fazer a Sua vontade nas situações concretas da vida. Ao contrário do que o termo pode sugerir à primeira vista — uma vida voltada para si mesma, fechada e egoísta —, a vida interior é, na verdade, um encontro com Aquele que habita no íntimo de cada pessoa. É voltar o coração para Deus e aprender a viver, em todas as circunstâncias, na Sua presença.
Origem do termo
Alguns podem se perguntar: de onde vem essa ideia? O contexto bíblico judaico-semítico, aponta para o coração (levav) não apenas como um órgão interno, mas significando o centro do indivíduo, da mente, da vontade e das decisões do ser humano.
Há também o movimento de Jesus retratado nos Evangelhos ao retirar-se para lugares ermos e recolher-se em oração. Observe que até o verbo muitas vezes utilizado: “recolher-se”, indica esse voltar-se para dentro, ficar em silêncio, pensar. Inclusive o próprio Jesus nos ensina como nos conectarmos com Deus pela oração: dentro de um quarto, em segredo, no silêncio (Mateus 6,6).

Fonte: arquivo pessoal
Outro grande contribuinte para essa ideia foi Santo Agostinho (354 – 430 d.C). Ele em seu livro “Confissões” chegou à seguinte conclusão após procurar Deus em vários lugares: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora!” (Livro X, capítulo 27).

Santa Teresa de Jesus (1515 – 1582), escreveu um livro chamado “Castelo Interior” em que ela compara a alma do ser humano a um Castelo com várias moradas/aposentos, sendo que Deus reside na principal delas, localizada no centro de todas. Ele habita no centro para realizar o “matrimônio espiritual” comunicando Seus segredos, grandezas, amor e misericórdia por meio de uma união íntima e silenciosa. Isso ocorre porque Deus criou a alma humana à Sua imagem e semelhança, conferindo-lhe beleza e capacidades que apenas Ele pode compreendê-la plenamente. Vale ressaltar que toda essa realidade só é possível pela porta de entrada que é a oração humilde.

Imagem: Håkan Svensson (Xauxa), Saint Theresa, church window, Convento de Sta Teresa, Ávila, Espanha, 2004. Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 3.0.
Vida interior x Vida exterior
Mas o que isso tem a ver com a vida prática? A vida exterior é aquilo que os outros conseguem ver: trabalhos, atividades, amizades etc. A vida interior deve animar e dar sentido a tudo isso. Pode acontecer inclusive de a pessoa rezar muito, trabalhar em atividades religiosas, falar constantemente com Deus, mas ter uma vida interior pobre se seu coração estiver longe d’Ele. Ao passo que alguém pode realizar atividades muito simples e escondidas, mas fazê-las por amor a Deus e viver profundamente unido a Ele.
Conclusão
Estamos num mundo em que somos a todo momento afetados por barulhos, grande quantidade de informações, distrações, notificações, vídeos engraçados, guloseimas, estímulos visuais, mensagens de WhatsApp etc. Tudo isso tem o seu lugar.
Porém, sem cuidados, podem impedir que desenvolvamos vida interior e fiquemos refém e até prefiramos apenas essas exterioridades, encontrando-nos poucas vezes com Aquele que nos criou, que nos ama e habita dentro de cada um.